Os livros da mãe

“Não matarás”: Uma viagem pela história europeia do século XX

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“Não matarás” é uma expressão que, quase de imediato, nos parece remeter para os ensinamentos da Bíblia. Curiosamente, esta trata-se de uma parte de uma afirmação proferida por um homem que não frequentava a Igreja frequentemente. “Tu não matarás, filho, porque nenhum homem é o mesmo depois de tirar a vida a outro”. Esta é uma frase retirada do livro “Não matarás”, de Julia Navarro e edição portuguesa da Bertrand Editora. Há uns dias, enquanto fazia a sua leitura, partilhei esta mesma frase no Instagram das Leituras descomplicadas e desafiei a reflexão sobre o efeito que a morte tem sobre quem a pratica… Será o homem o mesmo depois de a morte entrar na sua vida? É isso que podemos descobrir neste livro com as histórias de Fernando, Catalina e Eulogio.

 

“Não matarás”: Um livro que mexeu comigo…

“Não matarás” é o primeiro livro que leio de Julia Navarro. É, também, a primeira vez que leio um livro de mais de 900 páginas, por isso esta leitura foi de estreia em vário níveis!

O título “Não matarás” e a citação que surge na capa e que já partilhei convosco, proferida pelo pai de Fernando no início da narrativa, remete-nos para a reflexão sobre o efeito que a morte tem sobre quem mata. Seja na guerra, numa luta pela sobrevivência, ou em qualquer outra condição, é impossível que um homem volte a ser o mesmo. Os fantasmas assaltarão a consciência ao longo do resto da vida e o último olhar de quem morre fica cravado na retina de quem tira a vida. E é isso que vamos descobrir ao longo deste livro…

Confesso que estava algo receosa com a dimensão do livro mas a escrita de Julia Navarro teve a capacidade de me fazer ficar rendida a todo o enredo. Não queria, de forma alguma, deixar de acompanhar toda a história das três personagens principais: Fernando, Catalina e Eulogio. A história inicia-se com o final da Guerra Civil de Espanha e a subida ao poder do “Generalíssimo” Franco. Os tempos negros vividos pelos opositores ao regime de Franco (os rojos como a família de Fernando) no pós-guerra remete-nos para as recordações dos portugueses que viviam na raia nesta época. Muitos foram os portugueses que testemunharam os fuzilamentos que ocorreram nesta altura… Nunca esquecerei as histórias contadas pela minha mãe desta época e de como todos tremiam com a chegada da Guardía Civil ou da PIDE. Esta força atravessava a fronteira para vir ao lado de cá buscar os fugitivos e os levava com a conivência das autoridades portuguesas e os olhos que se fechavam da PIDE.

 

“Não matarás”: A turbulência e o crescimento humano ao longo de metade do século XX

Fernando, Catalina e Eulogio são jovens nesta época, carregados de sonhos e de ideais quanto ao futuro. No entanto, a opressão do regime de Franco abate-se da pior forma sobre estes três… Também a condição de mulher e todas as restrições que se viviam na época caem sobre Catalina com a possibilidade de um casamento de conveniência no horizonte… “Não matarás” nunca lhes sairá do pensamento…

A trama vai-se desenrolando e a Segunda Guerra Mundial abate-se sobre a Europa. Os nossos personagens vão para longe e refugiam-se junto às pirâmides, aguardando melhores dias. É aqui que surgem em cena Benjamim e Sara, que nos acompanharão até ao final. Conhecmos também Zahara e ganhamos consciência sobre o poder que os acontecimentos de uma infância podem ter sobre toda a nossa vida. É aqui que estes amigos se separam para sempre com a partida de Eulogio, arrancando-se a união e a ingenuidade que poderia existir nos laços de amizade entre eles.

Fernando e Catalina partem para Paris e é na cidade-luz que toda a história vai crescer em dimensão e nos contornos das diferentes personagens, mostrando-nos que nem tudo é o que parece. Este romance histórico mostra-nos o quanto os tempos eram de grande turbulência na Europa e pelo mundo. Mostra-nos como era fácil desaparecer e nunca mais se encontrado. Mostra-nos o quanto ser-se mulher até meados do século XX poderia ser determinante para nos impedir de sonhar e de desejar um futuro diferente. Mostra-nos como a guerra muda as pessoas de forma indelével e as pode fazer guardar a sete chaves os mais impensáveis segredos sobre si e sobre os outros. Mostra-nos o quanto a personalidade se pode modificar e sentimentos como o amor pode modificar a existência, condicionando decisões e impedindo o rumo da história de ser outro. Mostra-nos o poder que uma obsessão pode ter e o quanto isso pode magoar quem nos rodeia.

Mais uma guerra que termina e mais evoluções ocorrem em Catalina, Fernando e Eulogio. Existe morte, perda, revelações difíceis de aceitar e a visão e reflexão sobre a dimensão humana que importa reter. Este foi um romance histórico que gostei muito de ler e que nos consegue surpreender no final com uma reviravolta inesperada mas que apenas serve para confirmar que as ervas daninhas nascem daninhas e sê-lo-ão para sempre!

 

Aventurem-se nesta leitura, deixem-se envolver pelos braços da história europeia e mundial nas palavras de Fernando, Catalina e Eulogio, reflitam sobre a dimensão humana e não fujam de um livro com tantas páginas… Não se vão arrepender! 🙂

 

Outros livros de Julia Navarro:

A Bíblia de barro

O sangue dos inocentes

História de um canalha

A irmandade do Santo Sudário

Dispara, eu já estou morto

Diz-me quem sou

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