Uncategorized

Gravidez: Nem sempre tudo corre bem…

A gravidez, provavelmente a fase mais bonita das nossas vidas, é um desafio. Desafio físico, mental, sentimental… A todos os níveis, a gravidez coloca-nos à prova durante os nove meses que ela dura. Estamos muito felizes, geramos dentro de nós uma nova vida. Somos gratas por sermos capazes de conceber e isso vê-se no nosso rosto. Ao mesmo tempo, muitos são os receios que sobrevoam a nossa cabeça… Estará tudo bem com o bebé? A nossa saúde estará bem? Acho que já se devem estar a rever nestas palavras…

A minha gravidez foi longe de ser calma. Da diabetes gestacional à disfunção da sínfise púbica, tenho várias histórias para contar… (podem ler a minha história da diabetes gestacional neste post). Para terem uma pequena ideia, fiquei com a mobilidade bastante reduzida por dor pélvica (para saberem como lidei com a disfunção da sínfise púbica, leiam este post). Como resultado, por quase não poder andar, aumentei 20kg… Longe do peso que gostaria de ter aumentado… A gravidez que imaginei, calma e tranquila, não aconteceu.

Uma gravidez não se faz sem sermos acompanhadas por profissionais de saúde. Temos um ginecologista/obstetra que nos acompanha durante os nove meses e está lá para nós. Temos os técnicos dos vários exames que vamos tendo para fazer. Temos as enfermeiras da Obstetrícia sempre pacientes connosco. Ou, pelo menos, deveria ser assim, não é verdade?

O porquê desta partilha?

Quando tudo é cor-de-rosa, não pensamos muito. Mas quando a realidade surge um bocadinho acinzentada, pensamos… Pensamos muito. Ficamos com muitas dúvidas. E, muitas vezes, as pessoas não nos chegam a explicar se tudo poderia ter sido de outra forma. Numa gravidez, devemos sentir-nos acompanhadas, abraçadas… Mas bem sabemos que nem sempre essa é a realidade de todas as grávidas. E agora, fazendo a restrospectiva, vejo que não me senti assim…

Pensei bastante se deveria ou não escrever sobre isto… Este meu cantinho é feito de partilhas. Como a vida não é todos os dias cor-de-rosa, achoe que posso partilhar o que corre menos bem. Não tanto na perspectiva de vítima ou coitadinha mas com o objectivo de poder ajudar outras futuras mães. Elas, como eu, podem estar a passar por momentos mais difíceis na gravidez. Podem estar a sentir-se um pouco perdidas e, ao identificarem-se com uma história assim, pode ajudá-las a procurar a ajuda certa.

Uma gravidez que não vem nos livros

Olho para a minha gravidez e sinto que me devia ter sentido mais acompanhada. Das várias queixas que tive, sinto que nem sempre foram ouvidas como deveriam… Desde um primeiro trimestre enjoada que nem uma pescada em que tive de descobrir, por mim, alternativas para os enjoos. O famoso Nausef que faz maravilhas por todas as grávidas, não me fazia nada… Aliás, parecia que descompensava mais do que ajudava. Rapidamente o coloquei de parte e tentei descobrir alternativas. Descobri que o gengibre resulta bem! Tal como as amêndoas sem pele. Comer maçãs também me ajudava bastante nos piores dias… E assim me resolvi sozinha…

No final do primeiro trimestre, surge a confirmação da diabetes gestacional. Não fiz a famosa PTOG no 2º trimestre porque o alerta chegou mais cedo numas análises de rotina. Directamente encaminhada para a Endocrinologia com consultas de duas em duas semanas. Ganhei um amigo para todos os dias: picava o dedo para teste da glicémia cinco vezes ao dia. O barulho irritante daquele aparelho era o que me despertava para a realidade todos os dias. Tive um acompanhamento cinco estrelas na Endocrinologia. Sinto que foram feitas todas as análises e foram tidos todos os cuidados. Não precisei de tomar insulina, felizmente. Tudo foi controlado com dieta. A ideia seria também fazer exercício adaptado à gravidez… Mas, por volta das 20 semanas de gravidez, comecei a perder a mobilidade… E surgiu mais um problema… Mais um motivo para gravidez de risco…

Passar de corredora a quase sedentária…

Por volta das 20 semanas, comecei a sentir bastante desconforto na zona pélvica. Primeiro, umas dores enquanto dormia. Depois, dores que começaram a surgir enquanto andava. Falei com quem acompanhava a minha gravidez e foi desvalorizado… Disseram-me: “é normal, é o corpo a adaptar-se. É o corpo a alargar”… Mas sabem quando têm aquele feeling que não é normal? Irrita-me que, quando uma grávida se queixa, lhe digam que é normal. Acho que, para se saber que é normal, se deve analisar em detalhe… E isso não foi feito comigo. “Tome benuron que ajuda!”…

Procurei ajuda junto da fisioterapeuta que me ajudou na recuperação de uma cirurgia. Ela encaminhou-me para uma fisioterapeuta, a Estefânia, que foi a minha salvação! (ela já escreveu dois posts aqui no blog: leiam sobre a dor pélvica aqui e sobre o pós-parto aqui). Quase sem conseguir andar, fiz várias sessões com ela e recuperei parte da mobilidade. Modifiquei a alimentação por indicação dela, retirando os alimentos inflamatórios, e melhorei. Tinha exercícios como trabalho de casa que respeitei e melhorei. Procurei ajuda sozinha… Mas acho que não deveria ter sido assim…

Quando a borboleta não está do nosso lado

Em 2010, foi-me diagnosticada uma tiroidite. Os meus anticorpos tiroideos são elevados mas com função da tiroide normal. Por isso, não faço medicação mas existem cuidados a ter. Antes de engravidar, fazia acompanhamento anual, com análises ao sangue e ecografia. Durante a gravidez, e porque a tiroide pode ser afectada, aumentei a frequência das análises específicas. É fundamental que façam sempre análises e que monitorizem a vossa borboleta (sim, a tiroide tem uma forma semelhante a borboleta). Após a gravidez, felizmente, os meus anticorpos estabilizaram. Estou agora a fazer acompanhamento de seis em seis meses mas, em breve, deve passar a anual.

O que ingerimos durante a gravidez pode afectar a tiroide. Os suplementos prescritos às grávidas podem não ser tomados por todas. Eu tenho uma tiroidite diagnosticada. Quando engravidei, mencionei este aspecto… E foi-me indicado um suplemento com iodo. Algo que eu não posso tomar. Num artigo da Ordem dos Médicos pode ler-se (leiam o artigo completo “Iodo e Tiroide: o que o clínico deve saber” neste link):

Na gravidez é consensualmente recomendada a suplementação iodada, excepto em doentes com patologia tiroidea conhecida.

Fiz nove meses deste suplemento. Ninguém me disse que não o podia tomar. Recentemente descobri que poderia ter tido consequências indesejáveis. Felizmente está tudo bem. Comigo e com o meu filho. Mas podia não estar… Com esta minha história penso: quantas futuras mães podem estar a passar por situações semelhantes? Sem se darem conta, como eu, de que merecem um acompanhamento diferente?

Poderia ainda escrever sobre muitas mais coisas que não correram bem… Mas não vale a pena. Quero apenas alertar-vos de que, se sentirem que algo não está bem, não se acomodem. Mudem de médico se tiver que ser. Reclamem se tiver que ser. Façam todas as perguntas deste mundo e do outro. Não se resignem. E, se sentirem que não vos estão a contar tudo, questionem. Sejam teimosas! É a vossa saúde e a do vosso bebé que está em jogo.

 

Acompanhem-me no Facebook e no Instagram

 

 

Siga a Mom descomplicada
20

5 Comments

    • Mom descomplicada

      Acho que é mesmo isso: há muita falta de informação (ou actualização de conhecimentos?) e acabam por acontecer situações destas. Numa futura gravidez, garantidamente o médico escolhido será outro, por todos os motivos e mais alguns. Necessito de maior tranquilidade e maior apoio. Para além disso, a idade já é outra e há que estar mais atenta. Felizmente, que nem todos os profissionais de saúde são iguais e que as doulas vão tendo uma presença cada vez maior junto das grávidas portuguesas. Fico muito feliz por isso! Gostaria até que todas pudessem ter esse apoio. Seria fundamental para mais gravidezes bem vividas!

  • Até às Estrelas

    Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh! Quando fiquei grávida tinha uma ideia tãooo cor-de-rosa! Depois… comecei a sentir que afinal não era assim tão bonita… Estava com alterações na tiroide, dores horriveis na barriga, manchas amarelas/castanhas na cuecinha e foram ditas coisas pelas médicas como “isso é normal; foi um vaso sanguíneo que rompeu… ou isso ou então pode ser inicio de aborto; é o útero a adaptar-se; você tem um útero muito sensível”,

    Fiquei tão assustada com o acompanhamento que tive nessas primeiras semanas que só me levou a pensar “caramba, e quem não conseguir ter $$ para falar com alguém que realmente nos ouça?”

    O teu post foi tão informativo para mim, que estou agora de 15 semanas e como tive descolamento da placenta continuo a ter imenso cuidado (e medo).

    Obrigada pela partilha e ainda bem que está tudo bem convosco 😀
    Beijinho

    • Mom descomplicada

      É isso que me irrita, como escrevi no post: dizerem-nos sempre que é normal, quase a desvalorizarem as nossas queixas e os nossos receios. Não deve ser assim. Não pode ser assim, por nós e pelos nossos bebés! Que tudo corra pelo melhor com vocês!! ❤️ Beijinhos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *