Dia-a-dia

Na minha aldeia… Yes, it’s Rita! Ou a simpatia em pessoa do Instagram!

De certeza que não devo ser a única a adorar o Instagram. É a rede social certa para quem gosta de fotografia e de partilhar pequenos momentos do seu dia-a-dia e eu adoro ir partilhando coisas por lá (podem encontrar-me aqui). Podem dizer que muito do que por lá se partilha é apenas para “inglês ver” mas existem pessoas que transmitem boas energias e uma dessas pessoas é a simpática Rita que podem seguir em @i_rita e também a sua página no Facebook. E é claro que pessoas com boas energias têm de fazer parte desta minha “aldeia” virtual onde se fala de crianças e da aventura de viver a parentalidade no século XXI. Desafiei a Rita a responder a algumas questões e aqui fica o resultado… Espero que gostem!
YES, IT’S RITA… UMA ALENTEJANA PELO MUNDO!

– Quem é a Rita? 
Sou alentejana, tenho 34 anos (tenho que aproveitar para dizer isto enquanto o 4 não passa a 5), licenciei-me em Estudos Europeus mas a minha experiência profissional é toda nas áreas de Organização de Eventos e de Comunicação Empresarial. 
Fiz o Ensino Secundário em Artes e sempre gostei de “fazer coisas”, trabalhos manuais nas áreas mais variadas: pintura, crochet, caligrafia, bijuteria, costura, etc. Gosto de aprender a fazer tudo e tenho ideias (e faço coisas) ao ritmo de uma enxurrada. Às vezes, fico cansada só de pensar em todas as coisas que quero fazer. Depois de quase nove anos a trabalhar na mesma empresa, em 2013, deixei o meu trabalho e mudei-me com o meu namorado (agora marido) para Toulouse porque ele teve uma proposta de emprego lá. Inicialmente, planeava encontrar um novo trabalho, mas isso não aconteceu e entretanto, decidimos ser pais. Portanto, nessa altura (2015), passei também a ser “mãe a tempo inteiro” (que é uma expressão de que não gosto nada).


– Acompanhando o teu Instagram, dá para perceber que já viveste em alguns países para além de Portugal. Em quantos já viveste e quais? 

Além de Portugal, vivi na Bélgica, em França, nos Estados Unidos e, actualmente, na Malásia.

– Qual o motivo que te levou a sair de Portugal?
Saí de Portugal em 2012, para trabalhar em Bruxelas, na sede do grupo para o qual já trabalhava em Lisboa. Fui por um ano com possibilidade de continuar. No final desse ano, tinha que decidir se continuava por lá ou se regressava a Lisboa, sendo que nenhuma das duas soluções ia 100% ao encontro daquilo que queria.
Na mesma altura, o Pedro recebeu uma proposta de trabalho para ir para Toulouse. Não precisámos de pensar muito para chegar à conclusão que a única coisa que fazia sentido era irmos juntos para lá. Então, decidi deixar o meu trabalho e seguimos à aventura.

– E já tinhas a tua filha quando fizeste a tua primeira mudança? 
Não, a Inês nasceu quando estávamos em França. Foi nascer a Portugal por opção nossa, e fez a primeira viagem de avião com cerca de três semanas, para regressarmos a nossa casa, em Toulouse.


– Quais os maiores desafios que encontraste em mudar de país?

Há desafios comuns a todas as mudanças: a saga de encontrar uma casa nova, perceber qual é o pacote de televisão/telemóvel/internet que mais se adequa às nossas necessidades, abrir uma conta no banco, vistos, burocracias, tirar uma nova carta de condução, comprar um carro, descobrir os novos produtos no supermercado, conhecer pessoas e conseguir ter de novo um grupo de amigos, entre muitos.
E depois há os desafios específicos de cada país: na Bélgica, era o clima que era uma depressão; em França, a ausência do conceito “agradar ao cliente”; nos Estados Unidos, aceitar que uma melancia média pode custar $20 e agora, na Malásia, tanta coisa…mas falando de crianças, é um “desafio” evitar que as pessoas (estranhos) mexam na Inês e lhe tirem fotos sem pedir autorização…
Mas depois há toda a parte boa que normalmente começa a surgir mal deitamos fora o último caixote da mudança e dizemos “pronto, agora recomeçamos a nossa vida”. Conhecemos tantas pessoas novas, visitamos sítios onde nunca pensámos ir, vivemos em culturas diferentes da nossa e ficamos com montes de histórias para contar. É uma experiência que nos tem enriquecido muito enquanto pessoas.

– E como foi fazer a mudança com crianças? Quais os principais desafios e dificuldades?
No nosso caso, a principal dificuldade, no imediato, tem sempre a ver com o sono. A Inês sempre foi péssima a dormir. Só agora, com quase três anos, é que está a começar a dormir as noites seguidas. As duas mudanças de continente pelas quais ela já passou, foram para fusos horários absurdos (-9h de França para Seattle e +17h de Seattle para Kuala Lumpur). E isto afectou sempre o sono e o feitio da Inês (e o dos pais, em consequência). Demorou mais de um mês para a Inês se começar a comportar “normalmente” aqui na Malásia. Tivemos muitas noites de gritos sem razão aparente, ela sentia que alguma coisa estava diferente e expressava-se como sabia… não foi nada fácil. Em termos mais práticos, temos sempre que seleccionar quais as coisas dela que viajam connosco nas malas e as que ficam no contentor que segue de barco/camião/avião (e pode demorar três meses a ser-nos entregue). Tentamos simplificar: se vamos para um sítio civilizado, de certeza que se precisarmos muito, muito de algo de que nos esquecemos, vamos poder comprar. Então, não vale a pena stressar (mas só apliquei isto nesta segunda mudança com ela).
E em termos mais metafísicos, há a preocupação constante em manter viva a cultura portuguesa, a língua, o contacto com a família. A Inês é uma “criança de terceira cultura” (mais info sobre este tema dos Third Culture Kids e, portanto, tentamos aceitar isso (mas foi um caminho difícil), incutindo nela as coisas boas de cada cultura pela qual passamos, mas preservando os valores e vivências da cultura portuguesa, mesmo estando tão longe dela. É uma das minhas grandes preocupações.

– Chegaste a conhecer a realidade da escola em Portugal com os teus filhos? Se sim, quais as principais diferenças que encontras para o país em que estás agora? 
A Inês esteve em casa comigo até virmos para a Malásia. Como eu não estava a trabalhar e como sabíamos que haveria novas mudanças no horizonte, achámos que era o que fazia mais sentido porque era o cenário que lhe dava maior estabilidade. Decidimos que seria bom para ela começar a escola quando viemos para aqui porque ela já estava com dois anos e pouco e achávamos que precisava de interagir mais com outras pessoas e principalmente com crianças. E eu também precisava de umas horas de silêncio para fazer as coisas de que gosto e para viver a minha vida como Rita e não como “a mãe da Inês”.

E com outros países em que tenhas estado? 
Em França, ela ainda era muito pequena, brincávamos muito em casa, passeávamos muito, íamos ao parque, aos mercados ao fim-de-semana, mas não tivemos grande contacto com a realidade de como os franceses criam as suas crianças. Nos Estados Unidos, a Inês já andava, já interagia muito mais e havia uma rede de apoio enorme da qual beneficiámos muito. Em casa, tínhamos um mini-jardim infantil onde fazíamos as nossas actividades. As mães do nosso bairro organizavam “play dates” para os miúdos brincarem e nós conversarmos, conhecia sempre outras mães no parque infantil, íamos à hora do conto na biblioteca, participámos em todos os clichés Americanos: caça ao ovo na Páscoa, trick or treat e pumpkin patch no Halloween, decorar bolachas de gengibre no Natal, tudo como nos filmes. Aqui, não há tanta abertura para estes encontros de família, mas há sempre actividades direcionadas para crianças a acontecerem e há uma série de parques de diversão em centros comerciais, (até há spas para bebés) e outros eventos ao ar livre, que ainda estamos a explorar.

– Pensando na escola onde tens agora a tua filha… Segue alguma pedagogia alternativa? Como são os horários? Existem trabalhos de casa e visitas de estudo?
A Inês frequenta uma escola Montessori (aqui há muitas), num ambiente muito multicultural. A língua principal é o Inglês, mas têm uma “aunty” (as professoras aqui são “tias”, não no sentido snob do termo, mas no sentido familiar, mesmo 🙂 ) que fala com eles em Mandarim e também falam a língua local, Bahasa Melayu. A escola apresenta opção de horário completo, prolongado, ou a meio-tempo e a Inês está neste último regime. Não há trabalhos de casa para as crianças da idade dela, mas há visitas de estudo. Contudo, ainda não nos sentimos confortáveis em deixar a Inês ir a nenhuma. Talvez estejamos a ser demasiado rígidos, mas o facto de aqui não haver obrigatoriedade de utilização de cadeirinha de transporte de crianças nos veículos (juntamente com o modo de conduzir dos Malaios), não nos deixa nada tranquilos e decidimos que por enquanto a Inês não vai às visitas que impliquem deslocações de autocarro. A escola também promove actividades com os pais, sejam dias de “portas abertas” em que podemos passar umas horas com eles, ou actividades ao fim-de-semana, como ajudar na horta da escola, caminhadas solidárias, “messy play”, dias culturais, etc.

– Que sugestões deixarias para outros pais que estejam prestes a sair de Portugal para um outro país com os seus filhos?
Que acreditem que as crianças se adaptam com muito mais facilidade que nós, mas que não assumam que “eles não percebem” o que se está a passar. Percebem e reagem! Acho importante que se lhes expliquem as coisas, na linguagem deles. Com a Inês dissemos sempre: “amanhã vêm uns senhores que vão pôr as nossas coisas dentro de muitas caixas e depois nós vamos no avião e vamos para um sítio novo. Daqui a um tempo as nossas caixas voltam para o pé de nós e as nossas coisas estão lá dentro e podemos brincar com tudo outra vez.” Algo deste género 🙂 Claro que ela depois só fala nisto, mas é uma forma de a irmos preparando (e a nós também!). Outra coisa que também é muito importante para nós e julgo que para todos os pais, é assegurarmo-nos que mal chegamos a um novo país temos um pediatra, um hospital de referência em caso de urgência e agora, uma lista de escolas a visitar. Ainda que nós tenhamos a sorte de ter sempre uma “gestora de mudança” que nos ajuda com estas questões, recorro sempre aos grupos de portugueses no Facebook ou a grupos de expatriados ou mães locais para obter recomendações sobre estas coisas, ainda antes de nos mudarmos para o novo país.

-E planos para próximas mudanças? Pensas voltar a Portugal?
Há sempre uma próxima mudança no horizonte, mas tentamos não pensar muito nisso. Queremos voltar a Portugal, um dia. Para nós, esta opção de vida “nómada” é temporária. Mas não sabemos quando será possível. Por isso, estamos a aproveitar esta oportunidade ao máximo e a proporcionar esta experiência à Inês, porque acreditamos que fará dela uma pessoa muito mais rica. Quando penso que a Inês (que ainda nem três anos tem), andou de avião pela primeira vez com pouco mais de três semanas, já viveu em três países diferentes, visitou dez países, já completou uma volta ao mundo, e fala duas línguas, nem acredito. Mas tenho a certeza que esta bagagem fará dela uma pessoa com horizontes muito abertos e com ferramentas para enfrentar o mundo sem medos.

Podem seguir a Rita no Facebook e no Instagram!


Os três num dos locais mais famosos em Kuala Lumpur (Batu Caves)


A casa a ser embalada e carregada num contentor

O quintal da casa em Seattle com uma casinha e um escorrega

O nosso jardim em Seattle no Outono e no Inverno (com neve) onde brincávamos muito!

Nós a irmos de triciclo levar o correio

A entrada da Inês no avião na viagem em que completou a volta ao mundo (no sentido de dar a volta mesmo, não de ter visto TUDO)!

A nossa chegada a Kuala Lumpur com mil e uma malas e tralhas


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